segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tempos Modernos

Vivemos em tempos únicos.

Tempos esses em que vemos pessoas que usam de sua influência para dizimar aquilo que nos trouxe até aqui: a chamada "civilização".

Em quais tempos veríamos mulheres se posicionando contra o feminismo? Onde ser uma deputada 'antifeminista' seria considerado cult.

Onde ser contra sistemas de reparação histórica seria visto como esmola ou coitadismo? Que tempos, meus caros!

Esqueci de falar também sobre a necessidade de se haver conhecimento de causa para falar sobre, vejamos, medicina ou saúde pública? Ainda precisa disso?

Que tempos são esses que temos que defender o óbvio?

 

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Desabafo

De acordo com reportagem do jornal O Povo, 21% do tempo em sala é gasto pedindo aos alunos algo que a escola não deveria ensinar: disciplina.  

Ou seja, a cada cinco horas de aula, uma hora é perdida para conseguir a atenção dos estudantes. A mesma escola que precisa dar conta das funções de psicóloga, assistente social, educadora, formadora de opinião sofre com o constante abandono do poder público e também da família. Uma coisa não está dissociada de outra. O buraco é muito mais embaixo na educação infantil: crianças doentes, crises de viroses, negligência de cuidados básicos e as mesmas cobranças.

Em muitas ocasiões são os próprios pais que fomentam uma postura indisciplinada e desrespeitosa com os professores. Se o professor esbraveja, tem advertência e lições de moral dos pais; se o professor se mantém em silêncio, tem advertência e lições de moral dos pais; se o professor continua a aula para os poucos que respeitam, tem advertência e lições de moral dos pais. No final, a culpa sobre a indisciplina é dos pais, e eles a colocam em quem quiser. E ainda tem quem ache que sobra tempo para 'doutrinação' em sala. E lá vamos nós.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

O trabalho dos que trabalham.

No fim de semana, pude perceber a luta de classes ao vivo e a cores. Eu e minha esposa estávamos no norte da capital catarinense, aproveitando o dia. Na praia, o sol estava tímido entre muitas nuvens — um vento calmo e leves raios de sol moldavam a nossa pele. Estávamos sentados, conversando sobre as trivialidades comuns a um casal, observando o movimento: gente indo e vindo, correndo ou caminhando, e também os comerciantes que vendiam seus produtos e serviços. 

De repente, surgiu o Leviatã. O Estado, com seus tentáculos em todas as partes, encontrou naquela manhã de sábado o que fazer; cristalizado na forma de guardas, teve destino certo: os vendedores ambulantes que estavam na areia da praia, a ganhar o seu sustento. Não houve tempo para fuga. O Leviatã, tão cheio de burocracias e termos técnicos, logo indagou os trabalhadores sobre o que faziam ali. Por que estavam a fazer comércio sem uma autorização do Leviatã? O interrogatório durou pouco. Os guardas levaram os carrinhos de bebidas e comidas dos trabalhadores. 

O motivo? A falta de um papel que se chama alvará. Uma licença para poder levar o pão de cada dia para casa. Mesmo que houvesse o tal papel, creio que nada seria diferente. E essa certeza veio com a pergunta do burguês — dono de um restaurante na praia — que, ao ver o confisco dos meios de trabalho dos ambulantes, questionou os guardas em alta voz: — Não vão levar o carrinho do milho? — disse, enquanto apontava o dedo para o horizonte, onde se via uma mulher negra, de cabelos crespos e olhar assustado. Percebia-se que a moça sequer sabia o que acontecia ao longe. Teve mais sorte que os demais.

Possivelmente depois dali foram para outro local fazer o mesmo. 'Manter a ordem', talvez seja a justificativa. Nesse caso, o pão de cada dia se torna ameaçado por um papel colado na parede - mesmo que não haja parede para o colar -. Papel esse que significa a alforria ou a amarra de um sistema que exclui alguém que busca trabalhar de maneira honesta. E antes que me esqueça, a 'luta de classes' não é um fantasma; é uma operação policial na manhã de sábado.

domingo, 17 de agosto de 2025

Espelho

Ele, atlético, alto, com a barba bem feita. Ela, uma dama no auge de seus 37 anos, que poucos diriam sua idade real. Seu corpo revelava curvas que deixavam a todos inertes e seduzidos.

No ir e vir entre um café e outro, surgia um 'oi' desavisado, um olhar mais quente ou, até mesmo, o cheiro do perfume dele no ar. Depois de algum tempo, os breves cumprimentos já não eram suficientes para expressar a química que os atraía. Em uma repartição pública, o tempo é curto, contado.

O tempo urge. O que ruge dentro deles é o desejo da intimidade, cronometrado pelo tic-tac do relógio. A rotina, poucas vezes quebrada pelos compromissos laborais e familiares, não permitia diálogos, nem tempo a sós.

Ele, casado e pai. Marido. Ela, uma dama, esposa e mãe. A rotina vira tédio e o tédio, adultério. Ou quase isso. Um café não tira pedaço. Uma carona não é nada demais. Um bilhete é só um pedaço de papel.

Uma hora, uma ligação. Um recado no computador. "Podemos nos ver depois?". O carro dele corta a noite chuvosa. O dela, logo atrás.

Um quarto escuro, sem janelas. Apenas um leito oval. O cheiro? De mofo e desinfetantes baratos. O espelho no teto, firme e brilhante. Sorrisos.

Um beijo longo. As carícias reprimidas se esvaem entre os dedos dos dois. O úmido do quarto molha os corpos. A paixão é apressada, um esquecimento mútuo da vida lá fora. O esquecimento é para sempre. Os corpos se abraçam.

Um rangido metálico. Um estalo seco. Eles estão agora mortos. As únicas testemunhas são os cacos de vidro, agora manchados de vermelho. A traição acabou. O tempo que se apressou demais, chegou ao fim.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

As pessoas na sala de jantar.

Cantariam os Mutantes: "As pessoas na sala de jantar estão ocupadas em nascer e morrer". Pois bem. Passaram-se 57 anos desde a famosa gravação no caótico ano de 1968. E desde lá as pessoas se ocupam da mesma coisa. 

Já havia escrito em outro texto que, em minha percepção ao menos há uma apatia constante arraigada na sociedade atual. Ao que parece tudo surgiu do acaso, do oco. Nada que temos como direitos foram em nenhum momento conquista de luta. Foi assim por que Deus quis assim.

Em outro momento, talvez as coisas fossem outras. Mas como o 'se' não conta história, o melhor a se fazer é esperar emergir um monstro da lagoa.

O que mudou foi apenas o local. Antes, as pessoas davam-se ao luxo de estar na sala de jantar. Agora estão na sala de reuniões, no metrô, no feed do Instagram. Nascem a cada like, morrem a cada scroll. A vida virou um loop de atualizações, e a revolução foi substituída pelo botão 'compartilhar'. 

Parece que a sala de jantar dos Mutantes virou um pedido do Ifood. A mesa é conjunta mas cada um está em uma fatia diferente do mundo. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Injustiça legalizada.

Acordo com a notícia que um jornalista foi assassinado por Israel na cidade de Gaza. Mas para Israel, não era um jornalista, mas sim "membro do Hamas". 

A lógica é esta: está vivo, respirando e relatando as atrocidades cometidas pela IDF, é um terrorista. Independente da origem, da etnia, da religião. 

Israel diz erar em uma luta do bem contra o mal. Mas o mal, ao que parece está em todo o lugar. 

Se uma escola foi bombardeada: era um quartel do Hamas.

Se um hospital foi destruído: haviam membros do Hamas lá.

Se jornalistas, crianças famintas foram assassinadas em busca de comida: eram infiltrados do Hamas.

Mas para a maioria da população brasileira, Israel está correto em cometer tais atos, afinal é o 'povo escolhido por Deus'. Além do mais, não é incomum em passeatas de direita pessoas usarem a bandeira de Israel, alegando se tratar de um Estado cristão..

É controverso amar um Deus justo e ao mesmo tempo defender um país que mata crianças na fila de comida, assassina civis inocentes, ocupa áreas de maneira ilegal e tudo isso debaixo de um discurso de legitimidade. 

Além de controverso, é nojento e asqueroso.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Perdão

Lá pelas bandas do Alegrete, morava um sujeito magro, de aparência pueril. Seu nome era Jesuíno. Os cabelos, sempre bem penteados e rentes ao rosto, emolduravam um rosto pálido onde se destacavam óculos de lentes fundas. Por trás delas, via-se perfeitamente o verde desbotado de suas pupilas. Suas mãos, de dedos longos e finos como os de um pianista, carregavam uma aliança dourada que reluzia ao sol. No entanto, nunca se vira tal homem acompanhado de qualquer dama.Morava na última casa da Rua dos Marinheiros. Sua casa era a de número 17 — uma construção do começo do século passado, cercada por uma grade pontiaguda, por onde se via um longo gramado mal cuidado, salpicado de flores amarelas. Os crisântemos, resistentes e solitários, davam um ar de falsa nobreza ao lugar, como se a casa insistisse em manter alguma dignidade, ainda que há anos ninguém a tivesse cuidado. 

O prédio, de um vermelho carmim desbotado, era uma construção de madeira antiga, com duas janelas verdes de caixilhos corroídos pela umidade. A porta, feita de um único batente gasto, exibia um orifício circular no centro - uma espécie de olho mágico primitivo que observava a rua deserta. Os vizinhos sabiam quando o general chegava: as luminárias internas projetavam através das cortinas manchadas um reflexo alaranjado doentio, aquele tom feio de lâmpada velha. Era o único sinal de vida que emanava daquela casa morta.

Tratava-se de um sujeito solitário. Galgara a melhor posição que conseguira no Exército: Coronel. Solteiro, tivera uma vida amorosa bastante extensa, com casos discretos que alimentavam os cochichos na pequena cidade onde vivia. Por deliberada escolha, não tivera filhos. Sua esposa, companheira de quase trinta anos, abandonara-o justamente por essa decisão que considerava egoísta. Desde então, tornara-se para ex-colegas e vizinhos uma figura amuada, de conversas curtas e olhar sempre fixo no horizonte, como se esperasse algo - ou talvez alguém - que nunca chegaria.

Quem sabe ele não fosse bruxo. Ou um maçom. Será que fazia rituais satanistas em sua casa? – Isso e outras coisas os vizinhos falavam de boca miúda para não o chatear.

Jesuíno morreu numa terça-feira de Carnaval. Quando o encontraram, dias depois, seu corpo já estava em decomposição, exalando um odor de crisântemos murchos e terra molhada. Na cabeceira de sua cama, três objetos chamavam atenção: a aliança que nunca tirara do dedo, seu diário militar - onde confessava todos os desvios e desmandos cometidos no quartel em nome da honra e da pátria - e uma fotografia preto e branco de uma jovem, sua ex-esposa.

Os vizinhos ficaram perplexos. Na noite anterior, muitos juraram ter visto uma senhora de cabelos loiros e longos, vestindo um traje azul angelical, passando diante da casa do general. Porém, quando amanheceu, não havia nenhuma pegada no orvalho matinal. Seu único amigo e ex-colega de quartel riu do que ouvira: "Bobagem de gente fofoqueira". Promoveu Jesuíno postumamente a general e rebatizou o quartel onde fizeram carreira com o nome do falecido.

Na primavera seguinte, um único crisântemo desabrochou no já esquálido gramado da casa. Suas pétalas tinham o mesmo verde desbotado das pupilas do general. O verdadeiro alvoroço começou quando as crianças afirmaram que, ao se aproximarem da flor, ouviam chiar uma cadeira de balanço e um suspiro murmurante que pedia: "Perdoa-me, Inês..."

Mas adultos não acreditam nessas coisas.

Postagem em destaque

Tempos Modernos

Vivemos em tempos únicos. Tempos esses em que vemos pessoas que usam de sua influência para dizimar aquilo que nos trouxe até aqui: a chamad...