Bento Gonçalves é uma cidade que, assim como a maior parte dos municípios serranos, recebeu uma leva de imigrantes italianos na segunda metade do século XIX. Esses migrantes, ao contrário dos escravizados que haviam sido ‘libertos’ pela Lei Áurea, receberam terras e auxílio governamental em uma política deliberada de embranquecimento da população.
Essa migração enraizou na população um forte sentimento de pertencimento e, sobretudo, o cultivo e apego a tradições firmadas no conservadorismo. Nesse microcosmo social, Bento é uma cidade que não adota o progressismo como bandeira, nem as reparações históricas como causa. Essa visão transparece no pensamento de muitos de seus moradores, que em redes sociais classificam programas sociais, cotas raciais e outras formas de reparação como “coitadismo” ou “vitimização” – um paradoxo notável, uma vez que descendem justamente de quem se beneficiou de políticas passadas de acesso à terra e cotas imigratórias.
Foi nesse solo cultural que germinou nosso anti-herói: Diogo Siqueira. Natural de Santa Catarina e impulsionado pela onda de políticos que buscam uma imagem tecnocrática, Diogo havia sido secretário de saúde, posição que lhe deu trânsito e experiência para planejar sua ascensão. Bento, cidade onde a oposição a sucessivos governos de direita sempre teve dificuldade de se consolidar, criou uma espécie de coronelismo moderno, mantendo a mesma legenda no poder. Diogo elegeu-se, em grande medida, graças à sua atuação como “o homem do colete laranja” durante as enchentes de maio de 2025, que assolaram o Rio Grande do Sul. Ainda que os estragos locais fossem infinitamente menores que os de cidades como Porto Alegre ou Eldorado do Sul, ele soube capturar a atenção do povo, indo às localidades afetadas para “colocar a mão na massa” — supostamente empenhado em proteger a população.
Aproveitando o pico de popularidade e o fato de seu principal oponente ter declarado aversão a pessoas pobres, Diogo reelegeu-se com uma ajudinha de quem vos escreve. A vitória foi celebrada pela cidade como um título de bocha, com festas e euforia coletiva. Mal a eleição passou, porém, “Dioguito” começou a revelar seu lado sombrio.
Seu primeiro movimento concreto foi retirar direitos conquistados a duras penas pelos servidores. Sob o pretexto de uma gestão fiscal rigorosa, o prefeito dispensou até mesmo o diálogo com os principais afetados: os funcionários. De nada adiantaram os protestos em frente à prefeitura, os ofícios solicitando esclarecimentos ou a sessão ordinária que, no fim, suprimiu garantias históricas da categoria.
Em seguida, o foco de Diogo voltou-se para o Bolsa Família. “Mas como?”, poderia se perguntar, “mas quem cadastra os beneficiários não é a prefeitura?” Ora, ano eleitoral sempre traz suas “surpresas”. Desde o final do seu primeiro mandato, Diogo já anunciava a necessidade de reduzir o número de cadastrados pelos métodos mais ortodoxos possíveis.
Em suas redes, multiplicaram-se vídeos de humilhação onde supostos assistentes sociais dirigiam perguntas insidiosas a cidadãos, interrogando-os sobre por que não “queriam” trabalhar. A situação tornava-se ainda mais grave quando os alvos eram imigrantes de outros países, em especial venezuelanos, filmados de perfil e tratados como suspeitos. Não foi visto o mesmo empenho em falar sobre o trabalho escravo das vínicolas quando o incidente veio a público, em fevereiro de 2023.
Até que a bola da vez mudou.
Na ânsia de manter-se em evidência — traço que talvez remeta ao passado e à infância de Diogo —, o novo alvo tornou-se um professor da rede municipal. O motivo? Uma charge sobre a morte de um supremacista americano.
O problema, na verdade, não estava no desenho em si, mas em quem o fez. E onde. Bento, como se sabe, é uma espécie de Suíça gaúcha: não há crianças fora da escola, os postos de saúde estão sempre abastecidos, as filas por exames estão zeradas, e há recursos sobrando para construção e melhoria de escolas. Tudo em aparente ordem.
O mais significativo, contudo, é que o caso em questão não tinha qualquer relação com a rotina escolar. Um vereador alheio às suas funções deparou-se com a rede social do professor, desgostou-se do traço e decidiu “jogar pedra na Geni”.
Só que o tiro saiu pela culatra.
De diversos pontos do país e até do exterior, o professor recebeu apoio frente ao autoritarismo do gestor municipal. É claro que, em uma cidade de mentalidade provinciana, as opiniões não tendem à homogeneidade. Mas só pelo fato de o prefeito saber que ainda há — e ainda bem — resistência, já é um alívio para uma administração com ares de principado de quinta categoria.