sábado, 16 de maio de 2026

Nós contra eles (de novo).

Já é o segundo vídeo de um pré-candidato à Presidência que vejo usar o mesmo e já batido discurso de "nós contra eles". Sempre o mesmo teor sentimental de se colocar em uma cruzada épica, na qual os brasileiros "de bem" estariam com um candidato, e os do outro lado estariam contra o país. Parece roteiro reaproveitado de ópera bufa: o antagonista é sempre "o outro lado", e o Brasil vira cenário de uma guerra santa. Não há debate, apenas excomunhão.

O que mantém esse discurso operante é a fé — ou melhor, o uso dela para fins meramente eleitoreiros. Não se trata mais de política, mas de teologia. De um lado, os salvos, os eleitos, os tementes, a "luz". Do outro, as "trevas", os inimigos. E por aí vai.

Não há debate de ideias, sejam elas quais forem. Não há projeto de país. Há apenas exorcismo político.

Claro que não se pode esperar de um Flávio Bolsonaro ou de Romeu Zema um projeto de nação. Ambos sequer possuem plano de governo fora do lugar-comum "estado mínimo" ou "combate à corrupção".

No entanto, esse discurso raso ainda funciona. E funciona porque eles transformam a dor real do brasileiro — desemprego, carestia, cansaço — em combustível para o ódio. Para eles, o problema nunca é a escala 6x1, o salário que não dá, ou o preço da comida. O problema é sempre "eles": os do outro lado, os que estão contra o país.

No fundo, o "nós contra eles" nunca foi sobre o Brasil. Foi sobre não precisar explicar nada, propor nada, construir nada. Basta apontar um inimigo e abençoar a plateia. O resto — o país, o povo, o futuro — fica para depois. Mas esse depois nunca chega.

16/05/2026

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