segunda-feira, 1 de junho de 2026

Greve ou mala?

A mesma carta reescrita décadas depois. 

A situação dos professores em 2026 cabe dentro de uma mochila: café forte, remédio para dormir, estresse constante, dores de cabeça e terapia. Com o aproximar-se das eleições, brotam políticos e marqueteiros profissionais que em um estalar de dedos prometem  organizar, estudar soluções, "fazer o trabalho de casa" e colocar como prioridades cruciais quem ensina e quem é educado.

No mais, a situação continua a mesma. Basta passar as eleições que nada se altera.

Em Florianópolis, 550 servidores se exoneraram entre março e junho de 2026. Outros 240 foram demitidos por exigir melhores condições de trabalho e apoiar a greve. 

Um pequeno retrato de uma cidade que esbanja dinheiro em publicidade no centro mas deixa auxiliar de sala recebendo merreca e banheiro sem porta em Canasvieiras.

O rolo compressor instaurado pelo atual secretário de educação segue passando. A resistência segue firme. Mas por quanto tempo mais, antes que o desânimo vire desistência? Firmeza sem resultado cansa. E o que se vê é que professores cansados não fazem greve. Fazem as malas. 

Já ouço o argumento: 'Vocês reclamam demais, sabiam onde estavam entrando'. Sabíamos do salário baixo e do estresse. Não sabíamos que seríamos babá, psicólogo e depósito de crianças para pais relapsos — e que ainda ouviríamos reclamação quando ousamos greve por um mínimo.

Mas no final todo mundo sabe. Essa segue sendo a mesma carta reescrita ano após ano. 

sábado, 16 de maio de 2026

Nós contra eles (de novo).

Já é o segundo vídeo de um pré-candidato à Presidência que vejo usar o mesmo e já batido discurso de "nós contra eles". Sempre o mesmo teor sentimental de se colocar em uma cruzada épica, na qual os brasileiros "de bem" estariam com um candidato, e os do outro lado estariam contra o país. Parece roteiro reaproveitado de ópera bufa: o antagonista é sempre "o outro lado", e o Brasil vira cenário de uma guerra santa. Não há debate, apenas excomunhão.

O que mantém esse discurso operante é a fé — ou melhor, o uso dela para fins meramente eleitoreiros. Não se trata mais de política, mas de teologia. De um lado, os salvos, os eleitos, os tementes, a "luz". Do outro, as "trevas", os inimigos. E por aí vai.

Não há debate de ideias, sejam elas quais forem. Não há projeto de país. Há apenas exorcismo político.

Claro que não se pode esperar de um Flávio Bolsonaro ou de Romeu Zema um projeto de nação. Ambos sequer possuem plano de governo fora do lugar-comum "estado mínimo" ou "combate à corrupção".

No entanto, esse discurso raso ainda funciona. E funciona porque eles transformam a dor real do brasileiro — desemprego, carestia, cansaço — em combustível para o ódio. Para eles, o problema nunca é a escala 6x1, o salário que não dá, ou o preço da comida. O problema é sempre "eles": os do outro lado, os que estão contra o país.

No fundo, o "nós contra eles" nunca foi sobre o Brasil. Foi sobre não precisar explicar nada, propor nada, construir nada. Basta apontar um inimigo e abençoar a plateia. O resto — o país, o povo, o futuro — fica para depois. Mas esse depois nunca chega.

16/05/2026

terça-feira, 28 de abril de 2026

1° de Maio e a luta do século XXI.

No próximo dia 1°, comemoramos novamente o dia do trabalhador. 

Durante muitos anos, aprendi que este dia era uma homenagem ao 'trabalho'. Ora, se não houvesse um trabalhador, o trabalho - esta entidade abstrata- tampouco existiria. O que se nota hoje é um apagamento da real identidade desta data e sua origem operária e popular.

Conta a história que o estopim da celebração desta data foi a greve ocorrida em Chicago (EUA) em 1886 em que operários exigiam a diminuição jornadas que chegavam a 16 ou 17 horas de trabalho para 8 horas diárias. Em vez de terem suas pautas atendidas, vários dos operários envolvidos foram presos e alguns mortos. 

Trazendo para os dias de hoje é quase surreal pensar algumas pautas consideradas comuns há 100 anos ainda são reivindicadas em 2026. 

O Brasil de 2026 ainda debate se é necessário viver para trabalhar ou vice-versa. O 1º de Maio passou a ser uma data quase esquecida pela classe que o trouxe à baila. Enquanto partidos políticos o usam a bel-prazer, os reais interessados - os pobres trabalhadores seguem lutando por direitos básicos em um país que ainda os trata como meras engrenagens. 

Desde a "reforma" trabalhista de 2017, a situação de grande parte dos trabalhadores no Brasil piorou - e muito. A terceirização, pejotização, intermitência no trabalho e o esfacelamento da CLT tornaram a vida mais exaustiva e menos protegida. Tudo em prol de uma maior margem de lucro para poucos. 

Resiliência. Aquela palavra muito usada para descrever aquele ou aquilo que, apesar de todos os ventos contrários seguem seu rumo sem esmorecer. Resiliência não é uma palavra que me agrade tendo em vista a romantização que a exaustão tomou de alguns anos para cá. O que se chamava de "exploração" passou a ser vendido como "garra" ou "determinação". 

A mulher que possui tripla jornada não é uma precarizada, mas uma Xena, a princesa Guerreira.

Enquanto isso, o 1º de Maio — que nasceu para exigir 8 horas diárias — assiste o brasileiro trabalhar 12 ou 16 horas diariamente. São tantos os brasileiros entre empregos formais, informais, bicos, trabalhos domésticos e cuidado com os seus — o que na maioria dos casos é relegado para o 'depois', vista a alta incidência da escala 6x1

Há quem lute contra isso. E muitos que lutem a favor. Talvez seja essa a essência da famosa divisão pós-revolução Francesa. Enquanto alguns queriam manter o 'costume', outros desejavam o progresso.

Progresso para quem? Para quem trabalhava 17 horas por dia, o progresso não veio da boa vontade do patrão. Veio do punho erguido. Da greve. Se a história da classe trabalhadora nos ensina algo, é que não existe resiliência. Ensinou que nada se pede: se conquista. E que nada é um favor, mas um direito. Enquanto houver quem ainda trabalhe em escalas extenuantes para sobreviver, este dia não será uma comemoração, mas uma dívida.

Que o Brasil de 2026 aprenda com toda a história dos trabalhadores, e não se limite a lembrar do gesto; que entenda: lutar não é um símbolo, mas uma necessidade sempre válida.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Tempos Modernos

Vivemos em tempos únicos.

Tempos esses em que vemos pessoas que usam de sua influência para dizimar aquilo que nos trouxe até aqui: a chamada "civilização".

Em quais tempos veríamos mulheres se posicionando contra o feminismo? Onde ser uma deputada 'antifeminista' seria considerado cult.

Onde ser contra sistemas de reparação histórica seria visto como esmola ou coitadismo? Que tempos, meus caros!

Esqueci de falar também sobre a necessidade de se haver conhecimento de causa para falar sobre, vejamos, medicina ou saúde pública? Ainda precisa disso?

Que tempos são esses que temos que defender o óbvio?

 

 

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